soneto mudança—alexandre cruz

-Hei!

Cata o toco!

O balde é um caco!

E o côco é o copo!

A cama é jiral

Varal de forquilha

Tarecos que brilham

Com a luz do sol

Tem pro futebol

Uma bola no saco

No casaco de linho

Documento e porronco

chegando com ronco

Caminhão pra mudar!

soneto logo após—-alexandre cruz

os nossos lençóis amor

ainda estão do mesmo modo

desde o ocorrido durmo no sofá

o teu dvd predileto amor

ainda esta no aparelho

desde o ocorrido nada me agrada

o teu restaurante preferido querida

troquei pelo bar da esquina

desde o ocorrido não há vida

desde o ocorrido veio a ruina

todos aqueles momentos felizes

desde o ocorrido todos horriveis

todo amor no peito contido

morreu morreu desde o ocorrido

soneto da solidão—-alexandre cruz

às margens do Rio Negro

as aguas turvam passam

quebra à brisa o canto belo

da sereia que zomba de mim

solitário tal qual folha seca

ao vento levada sem rumo

hora mansa essa que choro

caminhos são muitos os meus

trabalho/ amigos/ cartas e beijos

nada mais me distrai

houve um passado feliz

queria ditar quem sabe o ‘replay’

o vídeo-tape dos momentos lindos

que junto de ti / meu amor/ passei

soneto sou por você——alexandre cruz

sou andarilho de tua geografia/ escalo teus montes

me embrenho em tua selva/ me afogo em teu mar

sou peixe aflito em tua piracema/ pássaro cansado

que custa a migrar/ aterrisso em teu ninho

fazemos amor à beira da praia/ sou fera acuada/ alcantilada

estou em tuas garras não posso fugir/ não posso

e não quero fugir/ não quero!

sou parte da tua simetria/ sou o ponto na reta

o ponto mais certo é o teu coração

sou teu frescor/ vem sana meu corpo

assanha o verão que há em mim/ quero teu corpo no inverno

sou esse teu amante inocente/ copio meus versos/ então te exalto

soletro palavras que falam de amor

sou o poeta que sou/ pois sou por voce

soneto desejo——alexandre cruz

Se choras eu choro choremos então

se rires por mim gargalho por ti

me digas um segredo que conto pra ti

uma prosa também

não quero querer só quero saber

o que tu queres fazer e sigo teus passos

com passos que sei que não posso passar

pois não passeio sozinho: passeio contigo!

são tantas historias retoricas confusas

abusa de mim e me cala com um beijo

dessa linda boca

que me diz tão bela e tão rouca

te amo

te amo

confissão———Alexandre Cruz

sou feito de pedra e pau da poeira que levanta sou da agua sou feito do fogo do sol que queima a terra quem vim sou folha sou arvore sou vento que estrala no abismo sou a cratera que nasce da terra seca sem agua nem planta mas com pés que pisam distancias

sou tijolo e areia concreto sou a chave que torce o ferro sou de ferro vim da maquina que faz sofrer doer sou feito de fibra cimento e aço sou feito de tudo e de tudo eu faço sou o grito calado o gemido escondido as muralhas gigantes que abafam a dor sou feito de hinos gritos sangue e suor sou a lagrima profunda que vem oriunda dos calos que ardem

sou o grito camponês sou a fala operaria o chora das mães que perdem seus filhos sou os filhos sem mães sou a dor de um homem que grita com fome sou a mulher que luta em busca de espaço sou o tempo que se faz fome e frio sou as crianças jogadas nas calçadas e meio fio

sou a educação que falta sou a comida sem ter sou o corpo sem saúde e uma criança sem lazer sou um sem terra sem teto desempregado me chamam de ladrão porque roubei para comer me chamam de arruaceiro porque ocupei pra não morrer me chamam de radical porque luto pelos meus direitos sou o campo sem vida sou a favela sem paz sou o planeta que viu sou essa pátria Brasil!